maneira de trancar a porta. Por fim, os passos pararam e
ela soube que ele estava mesmo do outro lado, ali, em pé,
silencioso, com seus olhos mortos e a longa cara
marcada. Foi então que se percebeu nua. Agachou-se,
tentando cobrir-se com as mãos, ao mesmo tempo em que
a porta começava a se abrir, rangendo, com a ponta da
espada espreitando...
Acordou murmurando:
- Por favor, por favor, serei boa, serei boa, por favor,
não - mas não havia ninguém para ouvi-la.
Quando por fim vieram realmente buscá-la, Sansa não
chegou a ouvir os passos. Foi Joffrey quem abriu a
porta, não Sor Ilyn, e sim o rapaz que fora o seu
príncipe. Estava na cama, enrolada sobre si mesma, com
as cortinas cerradas, e não soube dizer se era meio-dia ou
meia-noite. A primeira coisa que ouviu foi a porta
batendo. Depois, as colchas da cama foram puxadas para
trás, e ela ergueu a mão contra a súbita luz e os viu em
pé a seu lado.
- Esta tarde a apresentarei na audiência - disse Joffrey. -
Trate de se banhar e vestir algo próprio para minha
prometida - Sandor Clegane estava ao lado dele com um
gibão simples marrom e uma capa verde, com o rosto
queimado hediondo à luz da manhã. Atrás deles
encontravam-se dois cavaleiros da Guarda Real trajando
longos mantos de cetim branco.
Sansa puxou a manta até o queixo para se cobrir.
- Não - choramingou -, por favor... deixe-me em paz.
- Se recusar a se levantar e se vestir, meu Cão de Caça
fará isso por você - disse Joffrey.
- Suplico-lhe, meu príncipe...
- Eu agora sou rei. Cão, tire-a da cama.
Sandor Clegane agarrou-a pela cintura e a ergueu da
cama de penas enquanto ela se debatia numa luta frágil.
O cobertor caiu ao chão. Por baixo, tinha apenas uma
fina camisa de dormir cobrindo-lhe a nudez.
- Faz o que lhe pedem, criança - disse Clegane. - Vista-se
- empurrou-a até o roupeiro, quase com gentileza.
Sansa afastou-se deles.
- Eu fiz o que a rainha pediu, escrevi as cartas, escrevi o
que ela me disse para escrever. Vossa Graça prometeu
que seria misericordioso. Por favor, deixe-me ir para
casa. Não cometerei traições, serei boa, juro, não tenho
sangue de traidor, não tenho. Só quero ir para casa -
recordando-se da boa educação, baixou a cabeça. - Se for
sua vontade - terminou em voz fraca.
- Não é - disse Joffrey. - A mãe diz que eu ainda devo me
casar com você, portanto, ficará aqui e obedecerá.
- Eu não quero me casar com você - choramingou Sansa.
- Cortou a cabeça do meu pai!
- Ele era um traidor. Nunca prometi poupá-lo, só ser
misericordioso, e isso fui. Se ele não fosse seu pai, teria
mandado dilacerá-lo ou flagelá-lo, mas lhe ofereci uma
morte limpa.
Sansa fixou os olhos nele, vendo-o pela primeira vez.
Vestia um gibão carmesim almofadado com um padrão
de leões e uma capa de pano de ouro com um colarinho
elevado que lhe enquadrava o rosto. Perguntou-se como
podia alguma vez tê-lo achado bonito. Tinha uns lábios
tão moles e vermelhos como os vermes que se
encontravam depois das chuvas, e os olhos eram vaidosos
e cruéis.
- Odeio-o - sussurrou.
O rosto do Rei Joffrey endureceu.
- Minha mãe me disse que não é próprio que um rei bata
na esposa. Sor Meryn.
O cavaleiro estava em cima dela antes sequer de ter
tempo de pensar, puxando-lhe a mão para trás quando
tentou proteger o rosto e dando-lhe um murro na orelha
com as costas de um punho enluvado. Sansa não se
lembrava de ter caído, mas, quando deu por si, estava
estatelada nas esteiras. A cabeça ressoava. Sor Meryn
Trant pairava sobre ela, com sangue nos nós dos dedos
de sua luva de seda branca.
- Irá me obedecer agora, ou terei de mandá-lo castigá-la
de novo?
Sansa sentia a orelha dormente. Tocou-a, e as pontas dos
dedos vieram úmidas e vermelhas,
- Eu... como... às suas ordens, senhor.
- Vossa Graça — corrigiu Joffrey. - Procurarei por você
na audiência - virou-se e saiu.
Sor Meryn e Sor Arys seguiram-no, mas Sandor Clegane
ficou por tempo suficiente para a colocá-la em pé.
- Poupe-se de alguma dor, menina, e dê-lhe o que ele
quer.
- O que... o que ele quer? Diga-me, por favor.
- Quer vê-la sorrindo, perfumada, e sendo a senhora sua
amada - rouquejou Cão de Caça. - Quer ouvi-la recitar
todas as palavrinhas bonitas da maneira que a septã lhe
ensinou. Quer que o ame... e que o tema.
Depois de ele sair, Sansa voltou a estender-se nas
esteiras, olhando fixamente para a parede, até que duas
criadas de quarto deslizaram timidamente para dentro
do aposento.
- Vou precisar de água quente para o meu banho, por
favor - disse-lhes -, e de perfume, e algum pó para
esconder este roxo - o lado direito do rosto estava
inchado e começava a doer, mas sabia que Joffrey queria
vê-la bela.
A água quente a fez pensar em Winterfell, e retirou
forças daí. Não se lavara desde o dia em que o pai
morrera, e ficou sobressaltada ao ver como a água ficara
suja. As criadas limparam o sangue do rosto, rasparam a
sujeira das costas, lavaram os cabelos e os escovaram até
saltarem em espessos caracóis ruivos. Sansa não falou
nada, exceto para lhes dar ordens; eram criadas Lannis-
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